'Senti a mesma sensação que tive há oito anos', diz mãe de vítima da chacina de Realengo

Adriana Silveira e Maria José Martins perderam as filhas no atentado e sofram por episódios como esse ainda acontecerem

O GLOBO ON LINE (RJ) | ÚLTIMAS NOTÍCIAS | 14/03/2019
GABRIEL MORAIS
RIO — A sensação que Adriana Silveira e Maria José Martins tiveram há oito anos retornou na última quarta-feira. As duas eram, respectivamente, mães de Luiza Paula Silveira e Laryssa Martins, duas das 12 crianças mortas no massacre na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, em 2011. Adriana e Maria José contam que o ataque ocorrido na Escola Estadual Professor Raul, em Suzano (SP) as fizeram reviver os sentimentos de quando suas filhas foram assassinadas.
— Meu coração está de luto, procurei chão e não achei quando soube o que aconteceu. Senti a mesma sensação que tive há oito anos. Que pena eu não poder estar lá ao lado das mães e dos familiares das vítimas — lamenta Maria José.
— Ninguém sabe quem essas crianças de Suzano seriam amanhã, porque elas foram impedidas de ser. Dizer que a perda da vida de uma criança dentro da escola é uma fatalidade não é uma resposta para a sociedade. A resposta é fazer um trabalho de prevenção nas escolas — diz Adriana.
Na quarta-feira, Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Henrique de Castro, de 25, entraram na Escola Estadual Professor Raul, em Suzano (SP) — onde eram ex-alunos —, mataram cinco estudantes e dois funcionários. Depois, Guilherme matou Henrique e se suicidou. Antes de ir à escola, os criminosos tinham matado Jorge Antônio Moraes, tio de Guilherme. 
Em abril de 2011, Wellington Menezes, de 23 anos, também entrou no seu ex-colégio, a Escola Municipal Tasso da Silveira. Ele portava dois revólveres e assassinou 12 estudantes. Após ser baleado por um policial, se suicidou, assim como Guilherme. Pessoas que foram colegas de Wellington disseram que ele sofria bullying.
Depois da chacina em Realengo, foi formada a Associação dos Anjos de Realengo. Adriana é presidente do grupo, que Maria José também integra. A associação reúne 80 membros, entre pais e parentes das crianças mortas, sobreviventes do atentado junto de familiares e, mais recentemente, pessoas sem relação com as vítimas, mas que se solidarizam com a tragédia. Desde 2012, o grupo criou o projeto "Quem não conhece a história, repete seus erros”, que faz palestras em escolas:
— O objetivo é mostrar os valores humanos, falar da violência no âmbito escolar, tem que botar na cabeça deles o amor ao próximo. Se isso não entrar na cabeça deles, teremos muitos Wellingtons nas nossas vidas. Nossas crianças e adolescentes precisam ser tratados — explica Adriana.
Dois atiradores invadiram a Escola Estadual Raul Brasil , no Jardim Imperador, em Suzano , na Grande São Paulo, na manhã desta quarta-feira. Eles abriram fogo a esmo no horário do intervalo. Mataram cinco estudantes, uma funcionária do colégio e se suicidaram em seguida. (Leia mais)
No dia 7 de abril de 2011, doze adolescentes de 13 a 16 anos foram mortas dentro da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro. Outras 12 ficaram feridas. O atirador, um ex-aluno da escola, se matou em seguida com um tiro na cabeça. Ele deixou uma carta em que explicava que sofreu bullying na escola. (Leia mais)
Em Janaúba, Minas Gerais, um vigia entrou em uma sala de aula da creche Gente Inocente onde trabalhava, jogou combustível em si próprio e nos alunos e depois ateou fogo. O atentado aconteceu em outubro do ano passado e matou nove crianças e uma professora, que tentou salvar os estudantes. (Leia mais)
Em outubro de 2017, um adolescente de 14 anos levou para a escola a pistola .40 da mãe, que é policial militar, e disparou contra os colegas. Dois estudantes foram mortos e outros quatro ficaram feridos. O atirador era aluno do 8º ano do Colégio Goyazes. Segundo colegas, o estudantes sofria bullying. (Leia mais)
Em setembro de 2018, dois adolescentes entraram no Colégio Estadual João Manoel Mondrone, em Medianeira, no oeste do Paraná, e atacaram colegas de classe. Dois alunos foram atingidos por disparos, um deles ficou em estado grave, mas sobreviveu. Os envolvidos no ataque eram menores de idade e estudavam no colégio. (Leia mais)
Em abril de 2012, três alunos da escola estadual ficaram feridos em um atentado a tiros na Enéas Carvalho, na cidade de Santa Rita, na Grande João Pessoa (PB). Os disparos foram feitos por dois adolescentes, de 16 e 13 anos, que tinham como alvo um estudante de 15 — duas vítimas acabaram atingidas por estarem perto deste jovem.
Filho de um guarda-municipal, um estudante de dez anos atirou contra uma professora na escola municipal Alcina Dantas Feijão, em São Caetano do Sul, região metropolitana de São Paulo. O ataque aconteceu em abril de 2011. A criança atirou contra a própria cabeça e morreu em seguida, no hospital. A profissional sobreviveu.
AEscola Estadual Coronel Benedito Ortiz,em Taiúva, no interior de São Paulo, foi palco de um atentado em janeiro de 2003. Um ex-aluno, que era vítima de bullying, atacou cinco alunos, o caseiro, a zeladora e uma professora do colégio. Um dos alunos levou um tiro na coluna e ficou paraplégico.
Em outubro de 2002, um aluno de 17 anos atirou contra duas colegas de classe da escola particular Sigma, localizada no bairro Jaguaribe, em Salvador (BA). Ele foi convencido pelo irmão mais velho a se entregar para a polícia enquanto ameaçava tirar a própria vida na quadra do colégio.
O projeto é financiado pelos próprios integrantes, além de receber ajudas pontuais de empresas e de escolas particulares. Adriana chegou a sugerir outras iniciativas parecidas e pedir ajuda financeira ao governo estadual e municipal, mas isso nunca aconteceu. A presidente da associação também lançou um livro, em 2016, "Meu anjo Luiza", com o objetivo de passar valores humanos e amor ao próximo às crianças mais novas, de até sete anos. Ela é crítica da falta de prevenção e de tratamentos psicológicos com os estudantes, além da falta de segurança no ambiente escolar. Quando ocorreu o atentado em Realengo,o Senado chegou a tentar radicalizar o Estatuto do Desarmamento, mas a proposta foi deixada de lado.
— O que aconteceu é tudo que eu queria que nunca acontecesse de novo. Eu clamo aos nossos governantes que nunca mais aconteça um fato como esse. A prova que providência nenhuma foi tomada é que aconteceu aqui do lado, em São Paulo, e já aconteceu em Goiás, em outros lugares. Nossas crianças têm que estar seguras na escola, isso é uma falta de respeito com a memória dos nossos filhos — diz a presidente da associação.
Adriana também relembra de um episódio que ela presenciou durante uma de suas palestras:
— Teve um caso que eu conheci uma menina que queria se matar por causa do bullying que sofria, mas mudou de ideia depois da minha palestra. E foi algo emocionante porque os alunos que faziam o bullying com ela foram pedir desculpas. Hoje, são todos amigos.
Assim como Adriana, Maria José ainda sofre com a perda da filha:
— Nada preenche nossos corações, têm dias que sinto falta daquele abraço, do almoço que eu fazia. Sinto falta principalmente quando vejo uma criança com uniforme escolar. Ela nunca sai do meu pensamento.


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