Vizinha de mulher morta em briga de casal diz que fez 'várias ligações' para a polícia, em Fazenda Rio Grande

De acordo com investigação do Ministério Público, foram realizados pelo menos oito chamados à PM. Polícia, que diz que estava atendendo outras ocorrências, chegou ao local 40 minutos depois do assassinato.

G1 - PARANÁ (PR) | NOTÍCIAS | 15/03/2019
Uma vizinha de Daniela Eduarda Alves, morta em uma briga de casal em Fazenda Rio Grande, na Região Metropolitana de Curitiba, afirmou que fez várias ligações chamando a polícia para denunciar as agressões que a vítima estava sofrendo na casa ao lado.
"Foram várias ligações, várias. Desde os gritos até quando parou de responder", afirmou a vizinha, que preferiu não se identificar. De acordo com as investigações do Ministério Público do Paraná (MP-PR), pelo menos oito chamados foram feitos à Polícia Militar desde o início das agressões.
De acordo com a polícia, Daniela foi morta no dia 14 de janeiro pelo marido, Emerson Bezerra, a facadas na frente da filha do casal.
Segundo a vizinha de Daniela, os atendentes da Central de Operações Policiais Militares (Copom) afirmaram que o chamado estava aberto e que logo chegariam ao local para atender a ocorrência.
"Já tinha quase umas duas horas que a gente tinha ligado, aí ligamos novamente e falamos que não respondia", afirmou a vizinha.
De acordo com o registro de chamados, a primeira ligação dos moradores para a polícia foi registrada às 1h da madrugada. Emerson matou Daniela às 1h40. Segundo a polícia, a viatura só chegou ao local do crime às 2h20. Entre a primeira ligação e a chegada dos policiais, se passou uma hora e vinte.
PM diz que atendia outras ocorrências
De acordo com o tenente-coronel da Polícia Militar Manoel Jorge dos Santos Neto, a polícia não chegou a tempo na casa de Daniela porque as três viaturas do município estavam atendendo outras ocorrências, de invasão a domicílio e vias de fato.
"Estas são ocorrências que, para nós, também são encaradas como ocorrências prioritárias", afirmou o tenente-coronel da PM.
De acordo com Neto, todas as ocorrências em que há risco de vida são prioritárias. "Neste caso nós tínhamos quatro ocorrências consideradas prioritárias para atender também, a fatalidade foi que, infelizmente neste caso especifico, os chamados da Daniela vieram após outros chamados", afirmou.
Em entrevista à RPC, tenente-coronel da Polícia Militar Manoel Jorge dos Santos Neto afirmou que "foi uma briga de casal. Há uma necessidade de atendimento prévio que a família por certo também sabia".
Segundo o secretário de Segurança Pública do Paraná, Luiz Carbonell, os protocolos são rígidos, e uma viatura precisa atender a ocorrência aberta até o final.
"Nós podemos dizer que ela poderia ter desviado de um atendimento que aparentemente era menos grave, mas nós não sabemos o que vai acontecer ao final de um atendimento, então por isso que um protocolo faz com que uma viatura tenha que atender até o final uma ocorrência para que nós tenhamos certeza que não estamos trocando a vida de uma pessoa pela vida de outra", afirmou o secretário.
A PM, no entanto, afirma que vai mudar o protocolo e considerar o número de chamadas para uma mesma ocorrência para definir a prioridade de atendimento.
O governador do Paraná, Ratinho Junior, informou que há também um problema de estrutura na segurança do estado, e que assumiu o governo com 40% das viaturas na oficina. "São cinco policiais por viatura que deixa de estar trabalhando nas ruas", afirmou.
O governador afirmou que foi aberta uma sindicância para apurar se houve falha no atendimento.
Ligações
As ligações à polícia mostram o desespero dos vizinhos com a situação.
Confira, abaixo, alguns trechos das ligações feitas.
Atendente da PM: "Polícia militar, emergência".
Denunciante: "Eu estou ouvindo uns gritos aqui atrás da minha rua, uma mulher pedindo socorro".
Nas ligações, os moradores relatam sobre as agressões.
Denunciante: "Tem um homem, um vizinho que está batendo muito na mulher. Eu acho que até matou".
Os vizinhos insistem, desesperados.
Denunciante: "É a terceira vez que eu estou ligando".
Policial: "Já está sendo encaminhado o atendimento aí".
Denunciante: "Meu Deus, mas por quê demora tanto?".
Policial: "Porque a viatura, ela está dando atendimento a uma outra ocorrência, daí tem que esperar liberar, para atender essa".
A defesa de Emerson Bezerra afirmou que o réu é confesso, mas que entende que não se trata de feminicídio e disse que vai provar isso ao longo do processo.
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