20 partidos teriam lançado 300 candidatas ‘laranjas’ à Câmara, diz estudo

Estimativa consta em pesquisa divulgada pela BBC, que comparou as votações de candidatas que receberam menos de 1% dos votos com o desempenho do candidato eleito menos votado em cada estado

GAZETA DO POVO ONLINE (PR) | ÚLTIMAS NOTÍCIAS | 15/03/2019
KELLI KADANUS
O partido do presidente Jair Bolsonaro está no centro de um escândalo envolvendo candidatas supostamente ‘laranjas’ nas eleições de 2018 para cumprir a cota feminina especificada pela lei. Mas o PSL pode não ter sido o único partido a usar dessa artimanha, e nem o com mais casos. É o que mostra pesquisa das professoras Malu Gatto, da University College London (Reino Unido), e Kristin Wyllie, da James Madison University (EUA).
O estudo, publicado pela BBC Brasil, estima que a eleição para Câmara dos Deputados teve cerca de 300 candidatas potencialmente laranjas de 20 partidos diferentes. Ou seja, cerca de 20% de todas as candidaturas femininas em 2018 teriam sido de fachada, apenas para cumprir formalmente a lei de cotas.
Um dos critérios adotados pelas pesquisadoras para uma candidatura ser classificada como laranja está receber menos de 1% dos votos obtidos pelo candidato eleito menos votado no estado. O estudo sugere que as candidatas nestas condições não fizeram campanha e só foram lançadas pelos partidos para cumprir a lei de cotas.
A LISTA:?Confira a tabela com os 20 partidos que podem ter usado candidatas laranjas em 2018
Não é possível, no entanto, atestar que as possíveis candidatas laranjas apontadas pelo estudo são de fato laranjas. Nessa lista de candidatas com pouquíssimos votos, podem existir tanto mulheres que de fato não fizeram campanha quanto outras que, embora tenham mesmo tentado se eleger, tiveram poucos votos.
Segundo o levantamento, o PROS foi o partido com o maior percentual de candidaturas possivelmente laranjas. Das 75 candidatas pelo partido, 40% estavam nessa condição, segundo os critérios do estudo. Em seguida aparecem o PSC (37,5%) e o Podemos (35,5%). O PSL é o 13.º no ranking.
Em números absolutos, o campeão de candidatas aparentemente de fachada é o PSOL. Conforme o levantamento, o partido registrou 45 candidatas nessa condição em 2018 – 27% do total de mulheres que concorreram pela legenda. Em seguida, aparecem empatados o PROS (com 30) e PSC, PSL e Podemos (com 21 laranjas cada).
TSE definiu regras rígidas para cotas 
Além da previsão na Lei das Eleições, que obriga os partidos a registrarem pelo menos 30% de mulheres nas vagas para as eleições proporcionais, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também estabeleceu que as candidatas deveriam receber, em 2018, 30% dos recursos do Fundo Eleitoral. A ideia era evitar justamente as candidaturas laranjas, garantindo recursos para que mulheres pudessem concorrer e fazer suas campanhas. 
A Gazeta do Povo mostrou, recentemente, que o dinheiro que deveria ser usado por mulheres financiou campanhas de homens no Paraná. Candidatas que receberam dinheiro dos fundos públicos de campanha administrados pelos partidos usaram o recurso para pagar materiais de homens – inclusive de Ratinho Junior (PSD), governador do estado.
“Esse aumento de candidaturas laranjas demonstra o descompromisso dos partidos em relação à participação feminina na política. A despeito de o número de filiadas ser elevado, essas mulheres não compõem por exemplo, as direções desses partidos, não compõem espaços de poder dentro do partido. Quando vem uma lei para tentar estabelecer mecanismos para que haja o aumento dessa participação das mulheres, os partidos tentam sempre burlar a legislação colocando mulheres apenas para maquiar a exigência legal”, diz a advogada e mestre em Ciências Políticas Carolina Clève.

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