ESPAÇO ABERTO

Precisamos falar de um Brasil sem paralelo

FOLHA DE LONDRINA (PR) | COLUNISTAS | 12/04/2019
No última dia 31 de março, o canal Brasil Paralelo lançou o filme “1964 – o Brasil entre armas e livros”, no qual está presente a tese de que o Brasil, com o golpe militar que ocorreu no dia 1º de abril de 1964, se livrou do perigo do comunismo. Ao longo desta década, este canal vem realizando alguns documentários com o intuito de propor uma releitura da nossa história e, segundo a “teoria” defendida por seus ideólogos, as universidades brasileiras, assim como a imprensa, a arte e nossa cultura como um todo, foram contaminadas nas últimas décadas pelo marxismo cultural. Assim, seria necessário resgatar os valores da alta cultura brasileira que fora destruída por professores, jornalistas e artistas doutrinadores esquerdistas que estão alinhados com o movimento ideológico do globalismo.
Esta teoria da conspiração vem contribuindo de modo sistemático para um verdadeiro linchamento virtual contra os mais diferentes personagens sociais, principalmente os citados acima – jornalistas, professores e artistas. Uma zapeada rápida em grupos de whatsapp, páginas de Facebook, canais de YouTube e é fácil encontrar palavras pejorativas para se referir a profissionais inseridos nestas atividades. Extrema imprensa, professores de escória, artistas vagabundos sustentados pela Lei Rouanet são só alguns exemplos.
Se valendo de táticas alicerçadas em pós-verdades e sustentando suas narrativas no mais puro vale-tudismo, contribuem de modo significativo para a reprodução das conhecidas fakes news, que levam pessoas a não produzir conhecimento, mas sim meramente reproduzir informações. O propósito deste mau caratismo reacionário não está em contribuir para a construção de um Brasil sem paralelos em nossa história, mas sim em construir um Brasil literalmente paralelo, alternativo a este dominado pelo marxismo cultural.
Em relação ao documentário citado no início deste texto, a tese de uma suposta dominação global comunista soa ridícula quando analisamos inúmeras fontes disponíveis na atualidade sobre este tema. Para ficar apenas em um exemplo, cito o documentário produzido por Ken Burns e Lynn Novick, disponível na plataforma de streaming Netflix, sobre a Guerra do Vietnã. Ao longo de dez episódios é possível constatar como o macarthismo, perspectiva política elaborada pelo senador estadunidense Joseph McCarthy e que alimentou o imaginário de muitas pessoas nos EUA sobre o suposto perigo comunista ao longo dos anos de Guerra Fria, condenou à morte centenas de soldados estadunidenses e milhares de civis vietnamitas.
Mas é necessário dizer que não foram os responsáveis pelo canal Brasil Paralelo que encontraram no macarthismo a principal base teórica para sustentar as ideias presentes no documentário “1964 – o Brasil entre armas e livros”. A “fonte” na qual eles foram buscar referência se chama Olavo de Carvalho. Este senhor é o responsável não só por resgatar a perspectiva ideológica conhecida como macarthismo, como também de outras pérolas. O guru do clã Bolsonaro também levanta, por exemplo, a tese absurda de que Hitler era marxista e que o nazismo, portanto, é um fenômeno de esquerda.
Com três ministros alinhados ao pensamento olavesco ocupando cargos primordiais no atual governo (Ernesto Araújo, Ministério das Relações Exteriores; Damares Alves, Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos; e Abraham Weintraub, ministro da Educação), o propósito está claro: construir uma mentalidade pautada em perspectivas extremistas de direita no imaginário da população brasileira, tudo embasado no mais puro ódio para com quem não está alinhado as ideias do Guru de Richmond. Começou a era do “caça às bruxas” e, se tudo der certo para esta turma, nossos netos irão aprender uma História nada plural e democrática como hoje nos esforçamos para ensinar diariamente nas escolas.
LEANDRO CESAR LEOCÁDIO, professor de história e mestre em história social pela Universidade Estadual de Londrina


>> Link Original

#58233998