Lição no esporte e para vida

FAIR PLAY Após deixar adversário fazer um gol em nome do jogo limpo, equipe de futsal sub-13 do São Luís ganha vaga na final de torneio

JORNAL DO COMMERCIO PE (PE) | ESPORTES | 05/12/2019
LUANA PONSONI FILIPE FARIAS
P or mais que a Fifa incentive o fair play (jogo limpo), o tema divide opiniões e nem sempre é utilizado da melhor maneira, principalmente nos jogos mais acirrados. Porém, um caso ocorrido no futsal escolar de Pernambuco deveria servir de inspiração para todos (ou de reflexão), sobretudo para o futebol profissional. E a saga ainda terminou com uma forcinha do destino. Na última terça-feira, o time de futsal sub-13 do Colégio Marista São Luís deixou o Colégio Equipe chegar ao empate no primeiro jogo da semifinal da Liga das Escolas Particulares do Recife, depois de ter um gol irregular validado pelo juiz. A partida acabou com vitória do adversário por 2x1. No duelo da volta, ontem, na quadra do São Luís, o time da casa conseguiu vencer por 1x0, com um gol marcado no final do segundo tempo e que forçou uma prorrogação. A igualdade permaneceu no tempo extra e o São Luís obteve a classificação para a final por ter feito uma melhor campanha. O adversário será o Visão. A festa foi grande pela conquista da classificação, ainda mais pela grande lição de honestidade e justiça da equipe comandada pelo técnico Gileno Siqueira, de 36 anos. “Foi apenas o espírito de justiça de a gente fazer o que sempre fez. Buscamos ensinar mais do que jogar bola, porque jogar eles já sabem. Buscamos ensinar jogar de forma limpa, respeitosa. Você nao vê nossos jogadores brigando com o árbitro. Fez falta, pede desculpa. Precisamos disso”, afirmou Gileno após o jogo de ontem.

JOGO DO FAIR PLAY
A partida da última terça-feira seguia muito disputada, sem que nenhum dos times conseguisse inaugurar o placar. Na reta final da partida, porém, um atleta do São Luís chutou forte da intermediária e a bola caiu dentro do gol. Só que a rede estava furada, gerando muitas dúvidas sobre o lance. Depois que o juiz validou o tento, um princípio de confusão se instalou e um dos jogadores do Equipe questionou a atitude do árbitro, recebendo cartão amarelo. Diante de toda a situação, o técnico Gileno Siqueira chamou o autor do gol e perguntou se a bola realmente tinha entrado por fora. Com a resposta positiva do atleta, o treinador orientou que todos ficassem imóveis quando o jogo recomeçasse para o Equipe empatar a partida. “O meu enteado, que é o meu filho do coração, joga no time. Ele não escutou quando dei a orientação e até acabou partindo para disputar a bola. Tive que gritar para ele parar”, relatou. Apesar de a atitude gerar consternação inicial em alguns pais e pessoas que estavam na torcida, esse sentimento logo foi substituído por admiração. “Eu prego muito para os meninos que eles precisam disputar e batalhar muito portudo, mas do jeito certo.Nãoaqualquer custo. Quando eu tive a certeza que a bola não entrou, era o correto a se fazer”, contou Gileno. O treinador relatou ainda que essa não foi a primeira vez que ele e sua equipe optaram por seguir o que é certo dentro das quatro linhas. “Já aconteceu, em outros jogos, de o adversário chutar, a bola bater na trave e o juiz não dar o gol e eu ir lá e falar. Mas, desta vez, o árbitro não quis ouvir. E foi algo muito claro para todo mundo. Então, tive que ter uma postura maior. Pense como eu fui aplaudido (risos). Passei o dia hoje (ontem) recebendo mensagens. É algo muito estranho para a sociedade da gente. Mas sempre digo aos meninos: só podemos ter o que é nosso”, observou. O curioso é que, apesar da pouca idade, todos os jogadores do Marista São Luís entenderam o porquê da orientação do treinador. “Eles não fizeram nenhum comentário, nenhuma reclamação. Esse poder de comandar bem esses meninos tenho há um tempo. Eles sabem que tudo que eu faço é para o bem deles. Ensino-os a serem competitivos, a terem espírito de disputa, mas de maneira justa. É o que mais importa”, concluiu


Gesto nobre comove pais
FILIPE FARIAS

O gesto nobre do professor Gileno Siqueira, na última terça-feira, ao pedir que os seus atletas do sub-13 do Colégio Marista São Luís abrisse para que o Colégio Equipe empatasse o jogo, já que segundos antes o seu time tinha feito um gol irregular, comoveu os pais das duas escolas. Que elogiaram a atitude do educador. “Poucas vezes vi isso no esporte. Foi tocante o que aconteceu. É um tipo de valor que não tem sido muito ressaltado atualmente na sociedade de maneira geral. E o que o professor deles fez com os garotos foi uma lição para o resto da vida. Não só na atividade esportiva, mas para a vida em sociedade. Ensinamos as nossas crianças não com palavras bonitas, mas com exemplo. E esse exemplo vai ser lembrado por muito tempo”, falou o médico Alfredo Leite, pai de Heitor Leite, aluno do Colégio Equipe, e que escreveu um texto elogiando a postura do treinador adversário e que viralizou nas redes sociais. A atitude de Gileno Siqueira, que prega o jogo limpo para os seus alunos, só pôde ser tomada graças à postura honesta do pequeno Gabriel Araújo, que admitiu para o treinador que a bola tinha entrado pelo lado de fora - por um buraco na rede lateral. “A rede estava furada e parecia que tinha entrado por dentro. Não entendi na hora o porquê o árbitro apontou para o centro. Falei para ele na hora que não tinha sido gol, mas ele não me escutou. O professor Gileno me chamou e avisei que tinha sido por fora. E ele nos disse para abrir e deixar a bola do adversário entrar e ser um jogo justo”, contou o garoto de 13 anos, para felicidade do seu pai. “Fiquei orgulhoso da atitude dele. Mas, pra mim, o Fair Play deveria ser normal, ainda mais num ambiente de colégio. Isso deveria ser uma regra e não exceção. Mas infelizmente sabemos que nem sempre é assim”, comentou Gunther Boeckmann. Mesmo perdendo o primeiro jogo contra o Equipe por 2x1, graças à confissão do gol irregular, a justiça a favor do Marista São Luís veio ontem. E com o mesmo atleta que gerou toda comoção. A segunda partida entre os dois colégios estava empatada até o último minuto do segundo tempo, quando aconteceu uma falta na entrada da área. Gabriel foi para a cobrança e mandou a bola no fundo das redes. Desta vez, o seu gol foi validado de forma correta. Na prorrogação, o São Luís segurou o empate e, como tinha vantagem, avançou à final da Liga das Escolas Particulares do Recife. “Eu não tenho filho. Tenho dois enteados e um sobrinho que amo muito. Mas considero todos os meus alunos como filhos. Procuro dar a melhor educação que posso dar e que daria ao meu filho”, comentou Gileno Siqueira bastante emocionado após a vitória em quadra dos seus pupilos.


El Loco Bielsa fez algo parecido
MARCOS LEANDRO
A atitude do treinador de futsal do São Luís já foi praticada no futebol. E não faz muito tempo. Ex-treinador da seleção argentina (comandou a albiceleste na Copa do Mundo de 2002), Marcelo ‘El Loco’ Bielsa teve atitude semelhante a de Gileno Siqueira. A situação ocorreu na Championship, como é a chamada a Segunda Divisão na Inglaterra. Técnico do tradicional Leeds United (campeão inglês em 1969, 1974 e 1992), Bielsa mandou seu time abrir para sofrer um gol do Aston Villa. O jogo ocorreu no dia 28 de abril deste ano, pela reta final da fase de classificação. O Leeds abriu o placar em um lance que gerou muita polêmica. Isso porque um atleta do Aston Villa (Kodija) ficou caído no gramado após uma disputa da bola. Roberts, do Leeds, chutou para linha de fundo, dando a entender que a equipe teria fair play. No entanto, antes que a pelota saísse, Klich pegou a bola e marcou o gol para o Leeds. Os jogadores do Aston Villa se revoltaram e o tumulto começou. Foi aí que Bielsa mandou seus jogadores deixarem o Aston Villa marcar o gol de empate assim que a partida recomeçasse. E foi isso que aconteceu, mesmo com a discordância de atletas do próprio Leeds. Detalhe: com o empate por 1x1, resultado final do jogo, o Sheffield United garantiu o acesso para Premier League, feito repetido pelo Aston Villa no mata-mata. O Leeds, de Bielsa, ficou na Segunda Divisão.

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