Pelo menos 24 países, em quatro continentes, já confirmaram casos do novo coronavírus. Os Estados Unidos declararam ontem emergência em saúde pública por causa da doença e anunciaram que vão proibir temporariamente a entrada de estrangeiros vindos da China, onde começou o surto. Israel, Cingapura e Vietnã também adotaram veto semelhante, embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomende restrição de viagens. Mongólia e Rússia fecharam fronteiras terrestres com a China, que já registrou 259 mortes. No Brasil, há 12 casos suspeitos e nenhuma confirmação. Segundo as autoridades sanitárias americanas, as novas medidas são para diminuir o risco de propagação do vírus internamente. Sete casos da doença já foram confirmados no país e, anteontem, o governo dos EUA anunciou a primeira infecção em um cidadão que não esteve no país asiático, o que indica transmissão interna do vírus. O veto a estrangeiros começa amanhã e será voltado para visitantes que tenham ido ao país asiático nos 14 dias anteriores. Mais cedo, autoridades americanas já haviam recomendado aos americanos que não viajem à China. Ontem, as três maiores companhias aéreas americanas – United, Delta e American Airlines – decidiram suspender todos os seus voos para o país onde começou o novo surto. Antes do veto a estrangeiros vindos da China, a recomendação de evitar viagens feita por Washington motivou reação de Pequim. “Certamente, não foi um gesto de boa vontade”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Hua Chunying. Parte dos especialistas tem criticado a China por suposta falta de transparência em informações sobre o surto, que já tem 11,8 mil infectados. O governo afirma agir com abertura e responsabilidade. “Estou cheio de culpa e remorso. Se eu tivesse tomado medidas restritivas antes, o resultado teria sido melhor”, disse Ma Guoqiang, secretária do Partido Comunista Chinês da cidade de Wuhan, epicentro do surto e um dos locais sob quarentena. Mas autoridades estimam que 5 milhões dos 11 milhões de habitantes deixaram a cidade antes do isolamento. Brasil. O total de casos suspeitos de coronavírus no Brasil subiu para 12, segundo balanço do Ministério da Saúde ontem. O Estado de São Paulo tem sete registros, além de Rio Grande do Sul (2), Santa Catarina (1), Paraná (1) e Ceará (1). Outros dez casos tratados inicialmente como suspeitos foram descartados, por terem testado positivamente para o vírus da gripe. Segundo a Secretaria da Saúde paulista, das sete suspeitas, quatro são da capital, uma de Santo André (região metropolitana), uma de Paulínia e uma de Americana, ambas no interior. Segundo a pasta, eles estão bem e em isolamento domiciliar. O presidente Jair Bolsonaro disse que o governo ainda não tem planos definitivos de resgatar brasileiros que se encontram na China e querem voltar por medo do vírus – o que tem sido feito por países como Japão e EUA. A ausência de uma lei sobre quarentena, disse ele, é um dos obstáculos, além do preço de uma viagem do tipo. O tema, segundo Bolsonaro, deve ser discutido com o Legislativo. O ministério disse que fará compra emergencial de equipamentos de proteção individual e outros insumos necessários a profissionais de saúde, como máscaras, gorros, luvas, álcool em gel e medicamentos. Já o governo paulista disse que R$ 200 mil foram destinados para comprar kits diagnósticos
Afesta do ano-novo chinês prevista para ocorrer hoje e amanhã no bairro da Liberdade, em São Paulo, terá alteração na programação por causa do coronavírus. Em comunicado, os organizadores afirmam que foram suspensas algumas apresentações com crianças e idosos. O texto recomenda ainda que membros da comunidade que estiveram na China e voltaram nos últimos 30 dias façam “quarentena voluntária”. O avanço da doença e das notícias sobre o coronavírus já preocupa comerciantes da Liberdade, que temem prejuízos no evento mais rentável do ano. “Normalmente, essa é a melhor data para o nosso comércio. Melhor do que qualquer festa japonesa. O movimento cresce em mais de 50%. Vai ser um problema muito grande aqui se o público deixar de vir por medo do vírus”, diz Humberto Higa, de 54 anos, dono de um restaurante na Rua Galvão Bueno. Os comerciantes trabalham nos preparativos da festa e as barracas de pastel e de temaki na Praça da Liberdade vão contar com reforço de pessoal. “Tenho certeza de que amanhã (sábado) o bairro estará cheio”, disse o dono de uma barraca de temaki, José Mello. “As lojas continuam trabalhando normalmente. Mas vejo mais pessoas com máscaras”, disse a comerciante Alzira Oshiro, 63 anos. Os chineses da Liberdade são os que menos gostam de falar no assunto. Um comerciante, que preferiu não se identificar, disse que o medo é que a comunidade fique estigmatizada e que isso atrapalhe não somente os negócios, mas a vida na cidade. Heida Li, presidente da associação Brasil-China, afirma que as comemorações estão mantidas. “É uma festa que já faz parte do calendário da cidade. Claro, prezamos pela segurança e a saúde, mas temos certeza de que será uma festa muito bonita.” Máscaras. Enquanto o comércio vive de expectativas, as farmácias tiveram aumento na venda de máscaras – em alguns casos chegando ao fim do estoque. Quando são encontradas, as máscaras são vendidas por R$ 1, 50 a unidade ou em caixas de 50 unidades por R$ 50. A atendente de uma farmácia na Rua dos Estudantes disse ao Estado que não passa meia hora sem entrar alguém perguntando sobre as máscaras
om medo de o coronavírus chegar ao Brasil, colégios particulares de São Paulo já alertam pais e professores e reforçam o estoque de álcool em gel na volta às aulas. Docentes planejam até incluir o tema nas classes. No Colégio Santa Maria, na zona sul, professores de Ciência do ensino fundamental 2 (6.º ao 9.º anos) vão abordar o surto a partir da próxima semana. Um comunicado foi enviado a coordenadores pedagógicos com orientações, como lavar as mãos frequentemente e ficar atento a sintomas, como febre, tosse e dificuldade para respirar. Não há recomendação para usar máscara. O Colégio Presbiteriano Mackenzie, em Higienópolis, na região central, reforçou a presença de recipientes com álcool em gel nos corredores, banheiros e áreas de alimentação. Foram ainda fixados cartazes de campanha contra viroses. O mesmo comunicado foi enviado às famílias. O Colégio Dante Alighieri, nos Jardins, enviou informativo com o alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS), sintomas e prevenção. Orienta também que parentes de alunos que tenham ido à China e voltado nos últimos 14 dias entrem em contato. A escola Stance Dual, na região central, indicou às famílias os sites do Ministério da Saúde e da Associação Médica Brasileira para informações sobre o vírus. Agente comunitária de saúde, Gisele Ferreira, de 40 anos, espera que o colégio da filha fale sobre riscos. “Acredito que as escolas devem passar todas as recomendações a professores, alunos e pais. A aula da minha filha será retomada semana que vem e é importante a orientação”, diz ela, mãe da Larissa, de 15, que está no ensino médio na rede pública. “Em minhas visitas às residências, reforço a importância de lavar as mãos, observar sintomas e verificar histórico de viagens à China.” Procurada, a Secretaria Municipal de Educação não informou se há ações preventivas. Já a Secretaria Estadual disse seguir orientações da pasta da Saúde. Por enquanto, o governo não tem orientação para evitar aglomerações, mas disse acompanhar a situação dia a dia. A enfermeira Bruna Madruga, de 28 anos, mãe de Mateus, de 6, evita pânico. “Temos de acompanhar, mas acredito que ainda não há motivo para preocupação na cidade.”
No Japão, a hashtag #ChineseDon’tComeToJapan (Chineses não venham ao Japão) está na moda no Twitter. Em Cingapura, milhares assinaram petição para o governo proibir a entrada de chineses no país. E em Toronto, no Canadá, famílias exigiram que uma escola não recebesse crianças que retornaram recentemente da China. A propagação do coronavírus desencadeou uma onda de pânico e, em alguns casos, um sentimento anti-chinês. “Parte dessa xenofobia provavelmente tem por base tensões econômicas e políticas mais amplas com relação à China e que vêm interagindo com recentes temores de contágio”, disse Kristi Govella, professora de estudos asiáticos na Universidade do Havaí. Parte da reação pode ser vista como um cálculo racional baseado no risco de infecção. Empresas aéreas vêm cancelando voos para Wuhan, epicentro do surto. Além dos EUA, Vietnã, Mongólia, Cingapura, Israel, Guatemala e El Salvador decidiram vetar a entrada de viajantes vindos da China. Não é fácil determinar o limite entre o temor compreensível e a óbvia discriminação. Mas algumas medidas, de fato, têm contorno étnico ou racial. Em um restaurante no Vietnã, por exemplo, proprietários colocaram um cartaz com os dizeres: “Não podemos atender chineses, desculpem!” Uma rede em Hong Kong anunciou que passará a atender somente clientes que falem inglês ou cantonês. Por outro lado, alguns governos agem para diminuir o pânico. Em Toronto, foi emitido apelo para evitar o racismo que tomou conta da cidade quando a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) matou 44. E embora a Indonésia tenha barrado voos de Wuhan, o governador de Sumatra Ocidental, Irwan Prayitno ignorou apelo para impedir a entrada de chineses. No domingo, ele foi pessoalmente ao aeroporto para receber 174 visitantes da China. /