WALKIRIA VIEIRA
Maringá - Familiares, amigos e pessoas que não conheciam Maria Glória Poltronieri Borges, 25, assassinada no fim de semana passado, se reuniram em Maringá, no último sábado (1), para dizer não à violência. Magó era bailarina, estudante e professora de dança. Foi encontrada morta - asfixiada com sua roupa íntima e sinais de violência sexual - próxima a uma cachoeira no município de Mandaguari (Noroeste), no domingo (26). O crime chocou a população e amigas começaram a se mobilizar com o objetivo de chamar a atenção para o feminicídio em toda a região. Se a notícia de sua morte tomou as redes sociais pela tristeza e indignação - com mensagens enaltecendo Magó e amparando seus familiares - , a mobilização de sábado surpreendeu até mesmo o pai da jovem, Maurício Borges. “Eu sabia que as amigas estavam organizadas e pedindo apoio, mas quando cheguei aqui e vi essa quantidade de pessoas, eu me emocionei muito. Estou canalizando minhas forças por essa bandeira, que a partir de agora será a minha missão.” Com uma rosa branca nas mãos, o pai enlutado abraçou cada um que chegou a ele para confortá-lo e acabou também por consolar todos que estavam tomados pela recente perda. “Com a morte da minha filha de uma maneira tão atípica e absurda, pude ver que ela era muito mais amada e especial que eu já sabia. Se estivesse aqui, estaria dançando, era o que amava fazer.” Faixas, cartazes, poesias e apresentações artísticas marcaram o evento agendado para às 16 horas. Bem antes disso, já havia grande concentração com centenas de pessoas engajadas em pedir paz e amor à vida. Mariza Poltronieri, tia da bailarina, considera que a ação organizada foi positiva. “É um protesto, mas antes disso, um pedido de amor à vida e não só das mulheres vítimas de violência. Esse momento tão triste nos faz observar o significado que a morte dela tem no sentido de proteger as mulheres e toda a humanidade. Maria Glória erapura vida. Ela dava aula de capoeira, atuava na inclusão social e acreditava que a arte tem o poder da transformação. Eu espero que as pessoas percebam com esse movimento que a vida tem valor e essa é uma marcha de valorização à vida e à liberdade. Eu vou te dar um abraço, como a Magó faria para agradecer você por estar aqui e ela te olharia nos olhos”, disse
’Existo porque resisto’
“Existo, existo. Existo porque resisto”. Os versos foram parte do grito pela vida durante todo o evento. Estudante de Artes Cênicas, Serena Vieira integra o movimento Resis Trans e relata que a violência aos transexuais também deve ser banida. “Os dados no Brasil são alarmantes e temos que falar que todos os tipos de feminicídio devem ser combatidos e punidos, pois vivemos todos com medo e até dentro das universidades há preconceito, perseguição e violência.” Integrante do movimento coletivo feminino “Nenhuma a Menos”, Maria Joana Casagrande diz que seu objetivo com o atoéque isso não aconteça mais. “Foi algo muito brutal e tocou a todos. De uma forma ou outra, uma perda como essa faz cada um se colocar no lugar da família e esse é um momento de agregar forças, se indignar e de pedir socorro. Como pode alguém não ter direito à segurança e escolher os seus caminhos, como estar em contato com a natureza?”, questiona. “Eu nunca vi algo assim na minha vida. A morte de uma pessoa reunir tanta gente assim e até pessoas que não a conheciam diretamente, diz Bruno Umbezeiro, presente no encontro. Os óculos escuros escondiam as lágrimas e acrescentou: “Essa agressividade é muito impactante. Magó foi rezar”, reflete. A professora de dança Luciana Picoli também demonstrou sua consternação. “A intenção dela era a mais linda possível e sofreu uma violência brutal”, ressente-se. “Estou aqui há exatos oito meses e Magó foi a primeira pessoa que conheci na cidade. Nós nos mudamos por conta do trabalho de meu marido e tive a alegria de fazer amizade desde o primeiro dia em que levei meu filho de dez anos para fazer aula de dança afro com ela - desde então me acolheu com muita doçura”, recorda. Momentos de alegria com a jovem levada de forma abrupta foram compartilhados nas rodas de conversas formadas no entorno da Prefeitura deMaringá. A dor coletiva estampou o semblante de jovens, senhoras, crianças e as lágrimas não contidas misturaram-se às canções em coro. As palmas eram todas para Magó. Quadra a quadra, a avenida 15 de novembro foi recebendo mais pessoas. Do alto dos edifícios e nas calçadas, veio mais apoio e, pouco a pouco, a via interditada foi ficando estreita. Estima-se que cerca de 5 mil pessoas compareceram ao ato e, de acordo com informações da Semob (Secretaria de Mobilidade Urbana de Maringá), três viaturas e cinco agentes estavam presentes para dar suporte ao trânsito e orientar os motoristas e pedestres. Bandeiras de partido estavam autorizadas a serem recolhidas para queoevento não fosse usado politicamente. A irmã de Magó e a mãe acompanharam todo o trajeto e agradeceram a todos pelo respeito e amor à jovem. O percurso de cerca de dois quilômetros teve início na avenida XV de Novembro, seguiu pela rua São Paulo, depois alcançou as avenidas Brasil e Paraná até chegar à Tiradentes. O encerramento se deu na frente da Catedral de Maringá. Durante a passeata, todos os cruzamentos foram fechados e os motoristas aguardaram a passagem em sinal de respeito.(W.V.)
Em Curitiba, homenagem reúne mais de 200 pessoas
Curitiba - Em Curitiba, amigas, amigos e admiradores da bailarina Maria Glória Poltronieri Borges, a Magó, 25, também se reuniram no sábado (1), na Praça Santos Andrade, para uma série de homenagens. O ato começou às 16 horas e se estendeu até perto das 18 horas. O protesto, de tom pacífico, foi organizado de forma espontânea, pelas redes sociais. Alguns dos cerca de 200 presentes usavam camisetas na cor branca, com o rosto da jovem e os dizeres “A vida pede passagem, #MagóPresente”. Do alto de um caminhão de som, estacionado em frente ao Teatro Guaíra, algumas pessoas leram poesias. Houve performances artísticas e distribuição de flores. No fim, os participantes seguiram até a Praça do Homem e da Mulher Nus, acompanhados da “Bloca feminista Ela Pode, Ela Vai”. “Esse ato de lembrança está acontecendo em vários lugares do Brasil, motivado pelo próprio pai, o Maurício Borges, por causa da corrente de amizade que ela tinha, as relações artísticas e pessoais, e por ela ser uma pessoa muito engajada nas causas humanas, de defesa da natureza, do ser humano, da mulher, do sagrado feminino”, conta a professora Kelly Lotz, amiga da família há mais de 30 anos. “O que une a gente aqui é pedir a paz. Que a gente olhe com mais ternura para as outras pessoas e que essa sensibilidade artística que a Magó traz, o trato com as pessoas, possa reverberar cada vez mais entre os seres humanos”, destaca. Kelly reforça que todas as vidas são importantes e que Magó era um “ser de luz, que sempre uniu a todos pela arte, pelo respeito aos seres humanos e pela natureza”. O feminicídio da artistacausou comoção e indignação. Laudo preliminar do IML (Instituto Médico Legal) mostra que ela foi enforcada e violentada sexualmente. A Polícia Civil investiga o caso e ainda busca suspeitos do crime. Fotos tiradas no local têm sido usadas para ajudar na identificação. LONDRINA Em Londrina, um ato também em homenagem à Magó reuniu cerca de 50 pessoas no Zerão, na tarde de sábado. Os participantes pintaram cartazes com frases de repúdio ao feminicídio e houve roda de capoeira. Além de Curitiba, Maringá e Londrina, ocorreram ou estavam planejados atos semelhantes em outras cidades do País. Os cartazes levantados pelas mulheres trazem um pedido e um alerta: “parem de nos matar”.(Com Reportagem Local