RAFAEL NASCIMENTO DE SOUZA
RIO — Agentes da Polícia Civil realizam nesta quinta-feira uma ação contra envolvidos em um esquema de lavagem de dinheiro oriundo do tráfico de drogas da maior facção criminosa do estado. As investigações mostraram que o esquema movimentou mais de R$ 147 milhões nos últimos anos. Batizada de Shark Attack II (ataque de tubarão, em inglês), a operação visa a cumprir 12 mandados de prisão e dez de busca e apreensão. Um dos alvos é um empresário dono de uma construtora. Os investigadores cumprem os mandados no Rio, em São Paulo, Ribeirão Preto, Mato Grosso do Sul, Paraná, Curitiba e Ponta Porã. Até 7h42, seis pessoas haviam sido presas.
Essa é a terceira fase da ação de uma investigação da 19ª DP (Tijuca) que revelou um esquema financeiro que usava empresas fantasmas ou fictícias de vários estados para regularizar recursos obtidos por meio da venda de drogas no Morro do Borel, na Tijuca, na Zona Norte do Rio.
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De acordo com a Polícia Civil, o bando ocultava a origem do dinheiro através de empresas do Sul e Sudeste. O esquema levantou suspeita porque os sócios apresentavam padrão de vida incompatível com a movimentação financeira. Eles moravam, em sua maioria, em locais de baixa renda, onde eram sediadas as empresas.
Num dos casos identificados, uma companhia recebeu 38 depósitos em espécie com valores entre R$ 50 mil e R$ 85 mil entre 1º de outubro de 2018 e 19 de março de 2019. Ao todo, apenas essa firma recebeu R$ 2.208.805. Uma outra empresa teria recebido mais de R$ 3,5 milhões do grupo criminoso.
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Nas duas fases anteriores, foram presos traficantes e intermediários que eram responsáveis pelos depósitos nos bancos do Rio. De acordo com a polícia, os depósitos eram feitos em grandes quantias. Somente em uma das empresas investigadas, os criminosos teriam feito 332 depósitos em 48 cidades diferentes. Os agentes descobriram extratos bancários que indicavam a lavagem de dinheiro feita por essas empresas para traficantes de drogas.
Segundo a Polícia Civil, os depósitos eram sempre feitos com notas de pequeno valor, mofadas, malcheirosas e úmidas, além de serem feitos em agências próximas às comunidades ou em localidades de rota de tráfico. Os investigadores pediram o bloqueio dos bens da quadrilha.
Entre os mandados de prisão estão Celina Shirlei Solly Gomes e seu filho Nelson Aparecido Gomes, donos da ABGT Sistemas de Suprimentos de Informática. Eles foram detidos em Ribeirão Preto. A dupla, que mora em uma área pobre da cidade, movimentou R$ 50 milhões entre 2015 e 2019. Para a Justiça, eles não têm bens suficientes para estas transações e a empresa foi aberta para lavar dinheiro do trágico de drogas.
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Além deles, que tiveram as prisões expedidas pela 38ª Vara Criminal, a Justiça mandou prender João Pedro Braga, Maria Helena Parpinelli, Karina Taglicicol Castellano dos Santos, Diego Gabriel Camargo, Jonas Sinhorelli, Rosinaldo Alves da Cunha, Willian Carvalho Caldane, Cleide Deiss e José Carlos Deiss.
A Justiça também determinou a detenção de Fabiano Tadeu Cazarrote, empresário e dono da Cazarotte Empreendimentos Imobiliários que fica em Ribeirão Preto. Segundo a Polícia Civil, ele era o responsável por fiscalizar todas as contas das outras empresas e repassar para seus superiores.
Além disso, milhões de reais foram bloqueados das seguintes empresas: ABGT Sistemas de Suprimentos de Informática, G4 Gestão Empresarial e KTCS Terceirização Comercial. Além da Cazarotte Empreendimentos Imobiliários e da Hexxa Shows e Gestão Artística. Essas empresas tentavam burlar a Unidade de Inteligência Financeira (UIF), o antigo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) fazendo pequenas movimentações para não chamar a atenção.
Segundo a delegada Cristiana Bento, titular da 19ª DP (Vila Isabel), o bando chegava a movimentar até R$ 60 mil por dia provenientes dos depósitos feitos por terceiros.
Um caso que chamou a atenção foi a prisão de Luiz Henrique Kali de Souza em 2019 ao transportar 35 quilos de cocaína em Japeri. Segundo as investigações, ele depositou R$ 150 mil em espécie em notas pequenas para o bando num único dia. O homem não tinha bens para isso.
Em deleção premiada, Rafael Mandu de Sobral, morador do Jacarezinho, disse ter que sempre depositar dinheiro na conta das empresas. Em 2018, de uma única vez ele repassou R$ 44 mil. O valor, que era oriundo do trágico de drogas, foi depositado na conta da Hexxa Shows e Gestão Artística. Segundo Rafael, ele fez isso a mando do chefe do tráfico que atua no Jacarezinho, na Zona Norte do Rio. O homem foi preso na segunda fase da ação, que aconteceu no ano passado.
— Essa é uma organização criminosa é bem estruturada e eles recebem dinheiro de várias comunidades do Rio. Esse dinheiro é utilizado na compra de armas e de drogas para essa facção criminosa — disse a delegada Cristiana Bento.
Ainda de acordo com a Polícia Civil, Diego Gabriel Camargo e Cleide Nascimento, que moram em Curitiba, no Paraná, movimentaram entre 2017 e 2019, R$ 11 milhões e R$ 17 milhões, respectivamente. Ambos são considerados laranjas da organização criminosa.
Ao longo das investigações, a Polícia Civil notou que os laranjas recebiam entre R$ 2 e R$ 3 mil reais para manterem suas contas abertas.
Diversos empresários, produtores rurais e doleiros, que moram em Ponta Porã, no Mato Grosso, também estão sendo alvos da operação desta quinta-feira. A Justiça determinou busca e apreensão em suas residências. Um dos alvos é um empresário que tem residência do Paraguai.
— Queremos combater os barões que movimentam essa cadeia criminosa. Prendemos as pessoas que estão na ponta. No entanto, há pessoas que fomentam essa cadeia criminosa. Esse dinheiro tem que ser confiscado — salientou a delegada.
A investigação começou após dois homens fazerem um depósito bancário em dinheiro cujas notas tinham cheiro de maconha impregnado. Chamou a atenção das autoridades a tentativa da quadrilha de depositar R$ 99,6 mil em notas de pequeno valor em um caixa eletrônico de uma agência bancária na Tijuca, no dia 28 de janeiro de 2019. Por conta disso, a Polícia Militar foi chamada pela gerência do banco, os dois homens levados para a delegacia, onde prestaram depoimento, e foram liberados. A partir daí, a polícia começou a fazer o rastreio da origem do dinheiro.
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