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Na guerra contra a Covid 19, leitos de UTI, respiradores e profissionais de saúde são vitais

JORNAL DE BELTRÃO (PR) | ÚLTIMAS | 23/05/2020
Até ontem, 22, a região Sudoeste do Paraná tinha 72 casos confirmados de Covid-19, com 40 pacientes recuperados e quatro óbitos. Apesar de ter a primeira morte oficializada nesta semana, Francisco Beltrão é dos melhores aparelhados, entre os municípios do Paraná, para combater o coronavírus. A cidade tem, por exemplo, 35 leitos de UTIs (Unidades de Terapia Intensiva), considerando saúde pública e privada, fundamentais para o atendimento de pacientes graves com Covid-19. Se olhar apenas para os leitos conveniados com o SUS (Sistema Único de Saúde), então temos 26. Tomando o total, é o mesmo que 38,4 leitos de UTI a cada 100 mil habitantes. Não é pouca coisa se comparar ao Paraná que tem 18 leitos a cada 100 mil habitantes.
Os dados são do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cujo levantamento apresenta a distribuição de leitos de UTIs, respiradores, médicos e enfermeiros por unidades da federação e regiões consideradas referências em atendimento de saúde de baixa e média complexidade. O estudo partiu do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde 2019 (DataSUS).
O cruzamento de dados também revela a distribuição de respiradores, equipamentos que fazem a ventilação mecânica em pacientes com dificuldades respiratórias graves, nas unidades de saúde do País. Pelos dados do IBGE, Francisco Beltrão tinha 57 respiradores (2019) a cada 100 mil habitantes. Santarém, no Pará, teve índice de sete respiradores por 100 mil. A região com maior população, mas nenhum registro de respiradores, foi Governador Nunes Freire, no Maranhão, somando 149 mil habitantes. O melhor número, entre os estados, é do Distrito Federal com índice de 63 respiradores por 100 mil habitantes. O Paraná tem 31 respiradores a cada 100 mil habitantes. Com a pandemia de coronavírus, muitos municípios compraram mais respiradores. Francisco Beltrão, segundo o secretário de Saúde Manoel Brezolin, tem atualmente 92 respiradores (101/100 mil hab), o que melhora ainda mais sua capacidade de atendimento.
Guerra se vence com estratégia
A analogia de guerra contra a Covid-19 é bem oportuna. Enfermeiros e médicos são como soldados e oficiais no front de batalha, e respiradores o suprimento vital à vida. Contudo, uma guerra nem sempre se vence com quantidade. Estratégia é fundamental.
A distribuição demográficas dos profissionais de saúde demonstra isso. Francisco Beltrão tem 203 enfermeiros a cada 100 mil habitantes. O Paraná tem 128/100 mil hab. Marabá (Pará) (279.349 moradores) tem índice de 65 profissionais por 100 mil habitantes – só para efeitos de comparação.
O total de médicos a cada 100 mil habitantes em Francisco Beltrão é de 277. No Paraná, 209 profissionais a cada 100 mil hab. Há situações muito piores no Brasil como é o caso de Santarém (PA) que tem uma população de 786 mil habitantes e índice de 58 médicos por 100 mil habitantes. Irecê, na Bahia, vem em seguida com 512 mil habitantes e 60 médicos/100 hab. Entre as regiões com mais de 100 mil habitantes, a circunstância é mais crítica em Capitão Poço e Cametá, ambas no Pará, com índice de 22 médicos e 24 médicos por 100 mil habitantes, respectivamente.
O médico Badwan Jaber, diretor do Conselho Regional de Medicina (CRM) da Delegacia Francisco Beltrão, salienta que se comparar a estrutura de saúde atual de Francisco Beltrão com a de dez anos atrás, “houve melhora considerável no atendimento médico em todos os níveis. O HRS foi o grande responsável por esta melhora que se distribuiu aos outros serviços de saúde da cidade. Muitos profissionais que já trabalhavam na cidade e região puderam exercer suas atividades num hospital com uma boa estrutura de saúde, com equipamentos modernos”. Além disso, observa, muitos outros profissionais vieram de fora para Beltrão, atraídos pelo HRS e que, posteriormente, começaram a se estabelecer e atender em outros hospitais da cidade. “Isso com certeza elevou o nível geral da medicina praticada aqui, ratificando Francisco Beltrão como polo regional de saúde.”
Ele destaca que os investimentos públicos e privados estão tornando o município referência no Estado. “Nossa cidade é hoje polo regional na área de saúde. Em dez anos, evoluímos muito mais que a média de crescimento dos serviços no País. Hoje a cidade tem uma estrutura estabelecida e com fluxo determinado, o que é muito importante quando se fala em política de saúde. E quem estabeleceu este fluxo foi o HRS no início. Se há o que melhorar? Sim, em saúde sempre há. Ainda temos algumas deficiências em áreas específicas, mas que não comprometem o resultando final”.
Mais investimentos no HR em breve
JdeB - A diretora-geral do Hospital Regional, Cíntia Ramos, também cita a conquista do hospital como o marco histórico da saúde para a região Sudoeste. “Aliado à ampliação de oferta de especialidade e infraestrutura que oportunizou incremento de qualidade regional, somado ainda à implantação do curso de Medicina e residência médica, bem como a chegada de profissionais especialistas que se fixaram na rede local.” O futuro ainda reserva muitas coisas boas, como a implantação do serviço de hemodinâmica no HR e mais dez leitos de UTI. “O projeto já está tramitando no Governo do Estado com investimento previsto de R$ 7,5 milhões.”
Cíntia tranquilizou a população, dizendo que o Hospital Regional está preparado para o atendimento durante a pandemia da Covid-19. “Independente do coronavírus, que é um atendimento diferenciado, queremos manter a mesma qualidade nas demais especialidades que o hospital oferece. A gente se organizou, se preparou, ampliou a estrutura e investiu em tecnologia.”
HR: De 92 pacientes, apenas oito com Covid
JdeB - A diretora Cíntia Ramos, do Hospital Regional, relata também que o Paraná tem a menor taxa de crescimento da Covid-19. “Os dados demonstram um planejamento dos gestores em relação à infraestrutura versus leitos existentes, versus leitos ampliados para atendimento exclusivo.”
Segundo ela, a densidade demográfica e a proporcionalidade são essenciais para traçar as estratégias de enfrentamento ao coronavírus. “É por isso que os especialistas insistem em dizer que é tão difícil traçar um cenário único no Brasil. Cada região e Estado, têm condições bem distintas. Quanto aos atendimentos junto ao HRS, nestes últimos 60 dias observamos hospitalização de 92 pacientes com apenas oito desses positivos para Covid-19 e, infelizmente, três óbitos para a doença.”
Na opinião dela, as mediadas administrativas dos municípios contribuíram para o atual cenário de maior tranquilidade, “mas é lógico que essa pandemia nos traz incertezas quanto ao amanhã. O mais eficiente neste momento é o planejamento para atendimento mais intenso, pensando na evolução da doença, e medidas de distanciamento social”.
Quantidade nem sempre reflete qualidade
JdeB - O médico Badwan Jaber faz questão de frisar que é preciso diferenciar quantidade e qualidade quando se fala em saúde. “São duas coisas bem diferentes. Houve sim uma abertura desenfreada (e política) de escolas de Medicina sem qualquer critério técnico, principalmente durante os governos petistas. Não adianta você ter um médico para 500 habitantes se este médico não tiver condições técnicas e de estrutura para exercer sua profissão ou ainda que não tenha formação acadêmica adequada.”
Coronavírus na região
De acordo com ele, até o momento não houve muitas preocupações regionais em relação a Covid-19. “Isso nos deu um bom tempo para nos prepararmos para o pior, embora torçamos para que isso não aconteça. Os hospitais da cidade melhoraram sua estrutura dentro do esperado, mas não temos dados para projetar o que pode acontecer. Por exemplo, há um mês, esperávamos uma onda maior de pacientes com Covid-19 na região por estes dias, mas não vimos isso acontecer ainda. E vamos esperar que não aconteça”.
Mundo mudará para sempre
Dr. Badwan salienta que o desconhecido gera medo. “Não sabemos como esse vírus chegará até nós. Se será somente uma minoria de casos ou teremos um crescimento maior em algum momento. Há muita controvérsia e poucas certezas. A controvérsia maior sem dúvida é sobre o tratamento dessa doença. Como é nova, as drogas ainda estão sendo testadas, com resultados muito preliminares, o que dificulta seu uso. No entanto, uma das certezas é que a esperança está na vacina. É torcer para que a mesma venha logo. E outra certeza que temos também é que o mundo será diferente. Algumas coisas mudarão pra sempre, como viagens e cuidados de higiene, por exemplo”.


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