Fareed Zakaria

As sanções que realmente abalarão Putin

O ESTADO DE SÃO PAULO (SP) | COLUNAS | 05/03/2022
Para afetar a Rússia, os EUA deveriam impor restrições à indústria russa de petróleo e gás


A batalha se acoplou. Agora, resta saber quem vencerá. O presidente Joe Biden uniu não apenas o Ocidente, mas também grande parte do restante do mundo. Ele anunciou sanções mais abrangentes do que quaisquer outras jamais infligidas sobre uma grande economia. Os resultados já são evidentes. O mercado de ações da Rússia e o rublo estão em frangalhos. Mas, apesar disso tudo, sanções econômicas raramente forçaram um país a reverter seu rumo, muito menos mudanças de regime. Nos poucos casos que pareceram ter surtido algum efeito – na África do Sul, sobre o apartheid, e no Irã, em relação ao enriquecimento de urânio –, as sanções foram impostas de maneira abrangente. Países cruciais, incluindo China, Índia e os Estados do Golfo, dificilmente boicotarão a Rússia. Por isso, faltará a essas sanções uma pegada no longo prazo. Há um caminho para mudar o cálculo do presidente russo, Vladimir Putin: sancionar a indústria de petróleo e gás natural da Rússia. Esta é a galinha dos ovos de ouro de Putin, fonte da riqueza do Estado e razão pela qual ele pode acreditar que é capaz de resistir a qualquer tempestade. Até agora, o setor não foi apenas deixado incólume, as sanções financeiras foram cuidadosamente projetadas para permitir que a Rússia continue a vender energia para o mundo. Reza a sabedoria convencional que o Ocidente é incapaz de punir o setor de energia russo porque isso desencadearia uma crise energética como nos anos 70, o que causaria profundos descontentamentos domésticos. Mas a situação não é de nenhuma maneira análoga ao dilema dos anos 70. Atualmente, os EUA são o maior produtor mundial de petróleo e gás natural. O país é capaz de aumentar sua produção e suas exportações para ajudar a abastecer outros países. Biden está preocupado em parecer com o ex-presidente Jimmy Carter, quando sua posição de poder é, na verdade, mais parecida com a do rei da Arábia Saudita. DESAFIO. Biden deveria anunciar que vai responder a esse imenso desafio à ordem internacional determinando tantos aumentos de produção e exportação de petróleo dos EUA quanto possível para substituir o fornecimento russo de energia. Em relação ao gás natural, ele deveria pedir a suas agências reguladoras que facilitem a produção e deveria conceder mais ajuda ao financiamento do gás natural liquefeito, para que o insumo possa ser enviado para a Europa. Ele também deveria encorajar países como Japão e Coreia do Sul a destinar uma parte maior de sua produção de gás natural liquefeito à Europa (eles possuem fontes alternativas de energia). Parte disso levará tempo, mas os mercados reagirão aos sinais e aos novos fornecimentos – e os preços cairão. FONTES. Mas isso não será suficiente. Biden também deveria trabalhar para destravar duas grandes fontes de petróleo que hoje não estão chegando ao mercado com rapidez nem quantidade suficientes. Ele deveria suspender as sanções do ex-presidente Donald Trump à Venezuela e ao Irã. Se possível, Washington deveria trabalhar com o Irã para aparar as poucas arestas que restam e restabelecer o pacto nuclear, o que levaria de volta ao mercado todo o petróleo iraniano. E Biden deveria entrar em contato pessoalmente com Mohamed bin Salman, da Arábia Saudita, e Mohamed bin Zayed, dos Emirados Árabes Unidos (ambos sentindo-se desprezados por Washington nestes dias), costurar relações com eles e pedir que elevem sua produção – o que os Estados do Golfo têm mais capacidade de fazer no curto prazo. Já posso ouvir todas as objeções da direita e da esquerda. Permitam-me comentar algumas. Grande parte desse petróleo e gás natural simplesmente substituirá a (banida) energia russa. Então, dificilmente isso causaria algum aumento nas emissões. Existe até um benefício ambiental. O gás americano emite menos metano do que o russo, e a produção petrolífera dos EUA também é menos prejudicial ao meio ambiente do que a produção da Rússia. Em muitos lugares, o aumento da oferta de gás natural poderia significar que países como a Alemanha usariam menos carvão, um combustível mais poluente em quase todos os aspectos. De fato, a melhor maneira de cortar emissões de carbono no curto prazo – com as atuais tecnologias e em escala – é substituir o carvão pelo gás natural. Todas essas medidas têm lados negativos – alguns simbólicos, outros reais. Mas governar é escolher, e governar numa crise é fazer escolhas duras e dolorosas. O país que melhor entendeu essa dinâmica é a Alemanha, que suspendeu seu gasoduto Nord Stream 2, anunciou planos para construção de dois terminais para recebimento de gás natural liquefeito e reconheceu que poderá ter de usar mais carvão e prolongar a vida das usinas nucleares cujo fechamento havia programado. Essas escolhas vêm de uma coalizão de governo cuja segunda legenda mais importante é o Partido Verde, historicamente obstinado em relação às suas metas ambientais. RISCOS. O governo Biden afirmou que os riscos não poderiam ser mais altos. E está certo. Se a agressão de Putin for bem-sucedida, viveremos em um mundo diferente. Então é melhor garantirmos que isso não aconteça. Quando Adolf Hitler atacou a União Soviética, Winston Churchill, um anticomunista raivoso a vida inteira, afirmou que, se Hitler invadisse o inferno, ele (Churchill) teria encontrado algo bom para dizer do Diabo. Tudo o que temos de fazer é dar alguns passos para apoiar energia que não seja russa, e essa mudança de política se tornará a arma mortífera que atingirá o verdadeiro calcanhar de Aquiles de Putin. l TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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