JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS
A invasão da Ucrânia pela Rússia é um ponto de inflexão na história, cujas dimensões e consequências ainda são largamente obscuras. A começar pela duração da guerra, as condições sob as quais as hostilidades cessarão e a duração das sanções contra a Rússia, que certamente durarão mais do que os tiros. Uma coisa é certa: Putin perdeu e com ele seu país. A resistência ucraniana é muito maior do que a liderança imaginava, e a reação de Europa, EUA, Japão e a maior parte do mundo resultou no virtual desligamento da Rússia do resto do mundo, exceto a China. O país vai parar de funcionar e quebrar como nunca se viu. Não é apenas a trava financeira, mas o fato de que centenas de empresas decidiram sair do país e não mais voltar, além da interrupção temporária no tráfego de pessoas. Isso não decorre apenas da visão czarista de Putin, que sonha ser um Pedro, o Grande. Trata-se de uma aventura que vai além das possibilidades de um país economicamente médio e em trajetória declinante. O PIB russo é apenas o 11.º do mundo em dólares correntes e o 6.º no conceito PPP. Sua população é a 9.ª do mundo e já vem caindo em termos absolutos há vários anos em decorrência de problemas de saúde pública. A grande força do país vem do petróleo, produto que nos próximos vinte anos perderá valor, dado o processo inexorável de descarbonização. A Rússia é um caso clássico de decadência de uma potência que mantém poder militar, mas cujo suporte básico, a economia, começa a envelhecer. A aventura ucraniana seguramente vai acelerar esse processo. Entretanto, no curto prazo as ameaças russas não podem ser desprezadas por emergirem de um ditador frio, determinado e que comanda ogivas atômicas. Daí por que o crescimento da economia mundial vai perder tração. A explosão no preço de commodities e o fechamento do tráfego marítimo com a Rússia vão piorar a já difícil condição dos suprimentos globais, pressionando ainda mais a inflação. Os juros vão ter de subir bastante. Encerro chamando a atenção para quatro tópicos que julgo relevantes: 1) A invasão da Ucrânia energizou o projeto de integração europeia de uma forma difícil de imaginar até pouco tempo atrás; 2) Biden tem, finalmente, uma chance de galvanizar a opinião pública e crescer politicamente; 3) A transição energética vai dar papel muito mais relevante à energia nuclear e ao gás natural; 4) Para o Brasil, elevaramse as oportunidades na energia alternativa, nos processos de descarbonização e na sustentabilidade ambiental